por Jáder vanderlei Muniz de Souza
A leitura é basicamente um processo de representação. Como esse processo envolve o sentido da visão, ler é, na sua essência, olhar para uma coisa e ver outra. A leitura não se dá por acesso direto à realidade, mas por intermediação de outros elementos da realidade. Nessa triangulação da leitura o elemento intermediário funciona como um espelho; mostra um segmento do mundo que normalmente nada tem a ver com sua consistência física. Ler é, portanto, reconhecer o mundo através de espelhos. Como esses espelhos oferecem imagens fragmentadas do mundo, a verdadeira leitura só é possível quando se tem um conhecimento prévio desse mundo.
Embora a leitura, na concepção mais comum do termo, processa-se através da língua, também é possível a leitura através de sinais não-linguísticos. Pode-se ler tristeza nos olhos de alguém, a sorte não mão de uma pessoa ou o passado de um povo nas ruínas de uma cidade. Não se lê, portanto, apenas a palavra escrita mas também o próprio mundo que nos cerca.
O processo de triangulação, no entanto, é o mesmo. Ao fazermos a leitura sociológica de uma rua da cidade olhamos para as casas, o calçamento, as pessoas, mas vemos a realidade sociológica refletida por essa rua.
O segundo elemento da realidade não está em relação unívoca com o primeiro. Sendo o primeiro elemento um espelho, a visão a ser dada por esse espelho, depende da posição da pessoa em relação ao espelho. Diferentes posições refletem diferentes segmentos da realidade. Numa leitura do mundo, o objeto para o qual se olha funciona como um espelho. Se o objeto for, por exemplo, uma casa, vai oferecer tantas leituras quantas forem as posições de cada um dos observadores em relação à casa. O arquiteto fará uma leitura arquitetônica, o sociólogo uma leitura sociológica, o ladrão uma leitura estratégica, e assim por diante.
Sem triangulação não há leitura. Às vezes, no entanto, a triangulação não é possível. Quando o leitor diz “li mas não entendi”, ele ficou apenas no primeiro elemento da realidade; olhou mas não viu. Ouve tentativa de leitura mas não ouve leitura.
Entre o leitor e o que ele vê através da leitura pode haver mais de um espelho. Ocorre então que aquilo que é percebido é um reflexo do reflexo da realidade. Esse parece ser principalmente o caso da leitura de uma obra literária, que pode implicar não apenas reflexos de reflexos mas verdadeiro encadeamentos de reflexos. Na leitura de um poema, por exemplo, um determinado segmento da realidade (um dos possíveis significados do poema) pode ser refletido através de vários espelhos até chegar à percepção do leitor.
Primordialmente, na sua concepção mais geral e fundamental, ler é usar segmentos da realidade para chegar a outros segmentos. Dentro dessa acepção, tanto a palavra escrita como outros objetos podem ser lidos, desde que sirvam como elementos intermediários, indicadores de outros elementos. Esse processo de triangulação, de acesso indireto à realidade, é a condição básica para que o ato da leitura ocorra.
- Perspectivas de leitura:
ü Leitura como extração de significado do texto
Um dos axiomas da leitura é de que ler implica significado, sendo significado aquele segmento da realidade a que se chega através de um outro segmento. O significado pode estar em vários lugares, mas ao se usar o verbo extrair, põe-se o significado dentro do texto. Uma analogia que parece refletir adequadamente esta acepção de leitura é a de que o texto é uma mina, possivelmente com inúmeros corredores subterrâneos, cheia de riquezas, mas que precisa ser persistentemente explorada pelo leitor.
Essa leitura extração-de-significado está associada a idéia de que o texto tem um significado preciso, exato e completo, que o leitor-minerador pode obter através do esforço e da persistência. Como o texto contém o significado, esse texto precisa ser apreendido pelo leitor na sua íntegra. A leitura deve ser cuidadosa, com consulta ao dicionário sempre que uma palavra desconhecida for encontrada e anotação da palavra para revisões posteriores e enriquecimento do vocabulário. Frases de compreensão difícil devem ser lidas e relidas até que a compreensão fique clara.
A adivinhação de palavras novas pelo contexto deve ser evitada porque a leitura é um processo exato e a compreensão não comporta aproximações. O texto está cheio de armadilhas para o leitor impulsivo que não sabe parar e refletir diante dos vocábulos que só são semelhantes na aparência ou de figuras de linguagem que precisam ser reconhecidas para que se possa apreciar a beleza do texto. Tudo que o texto contém precisa ser detectado e analisado para que o seu verdadeiro significado possa ser extraído.
Erros de leitura oral são vistos como provas de deficiência em leitura. A leitura é um processo linear que se desenvolve palavra por palavra. O significado é extraído – vai-se acumulando – à medida em que essas palavras vão sendo processadas.
O aspecto visual da leitura – o papel dos olhos – é de extrema importância nesta acepção de leitura. O significado vai do texto ao leitor, através dos olhos. Nenhuma palavra é entendida antes de ser vista. O raciocínio do leitor é comandado pela informação que entra pelos olhos.
O leitor está subordinado ao texto, que é o pólo mais importante da leitura. Se o texto for rico, o leitor se enriquecerá com ele, aumentará seu conhecimento de tudo porque o texto é mundo. Se o texto for pobre, mina sem ouro, o leitor perderá seu tempo, porque nada há para extrair.
O leitor-minerador tem no entanto muito a ganhar, porque há uma riqueza incalculável nos livros tudo que ele de melhor produziu o pensamento humano está registrado na permanência da palavra escrita.
A compreensão é o resultado do ato da leitura. O valor da leitura só pode ser medido depois que a leitura terminou. A ênfase não está no processe da compreensão, na construção do significado, mas no produto final dessa compreensão.
A leitura é um processe ascendente. A compreensão sobe do texto ao leitor na medida exata em que o leitor vai avançando no texto. As letras vão formando palavras, as palavras frases e as frases parágrafos. O texto é processa do literalmente da esquerda para a direita e de cima para baixo.
A concepção da leitura como um processo de extração tem, no entanto, sérias limitações. O verbo extrair, em primeiro lugar, não reflete o que realmente acontece na leitura. O leitor não extrai um conteúdo do texto, como se o texto fosse uma mina que se esvazia com a mineração. O conteúdo não se transfere do texto para o leitor, mas antes se reproduz no leitor, sem deixar de permanecer no texto. Conceptualmente, não teríamos portanto uma extração, mas uma cópia.
Na realidade, o texto não possui um conteúdo mas reflete-o como um espelho. Assim como não há qualquer identidade física entre o material de que é feito o espelho e o material que ele reflete, não existe também uma relação unívoca entre o texto e o conteúdo. Um mesmo texto pode refletir vários conteúdos, como vários textos podem também refletir um só conteúdo.
ü Leitura com atribuição de significado ao texto
A acepção de que ler é atribuir significado, põe a origem do significado não no texto mas no leitor. O mesmo texto pode provocar em cada leitor e mesmo em cada leitura uma visão diferente da realidade.
A visão da realidade provocada pela presença do texto depende da bagagem de experiências prévias que o leitor traz para a leitura. O texto não contém a realidade, reflete apenas segmentos da realidade, entremeados de inúmeras lacunas, que o leitor vai preenchendo com o conhecimento prévio que possui do mundo.
A qualidade do ato da leitura não é medida pela qualidade intrínseca do texto, mas pela qualidade da reação do leitor. A riqueza da leitura não está necessariamente nas grandes obras clássicas, mas na experiência do leitor ao processar o texto. O significado não está na mensagem do texto mas na série de acontecimentos que o texto desencadeia na mente do leitor.
Ler não implica necessariamente apreender a mensagem na sua íntegra. A leitura pode ser lenta e cuidadosa como rápida e superficial, com ou sem consulta ao dicionário. A adivinhação de palavras desconhecidas pelo contexto é incentivada. Ao encontrar uma frase de com preensão difícil, o leitor não deve parar e reler, mas ler adiante; provavelmente entendendo a frase ao chegar ao fim do parágrafo.
Erros de leitura oral são interpretados do ponto de vista qualitativo e considerados apenas como desvios. Não importa cometer muitos erros; o que imteressa é o tipo de erro cometido. Se no texto, por exemplo, estiver escrito “gatinho” e o leitor ler “bichinho” mantendo a coerência interpretativa, considera-se que a qualidade da leitura não é prejudicada.
A leitura não é interpretada como um procedimento linear, onde o significado é construído palavra por palavra, mas como um procedimento de levantamento de hipóteses. O que o leitor processa da página escrita é o mínimo necessário para confirmar ou rejeitar hipóteses.
Os olhos não vêem o que realmente está escrito na pagina, mas apenas determinadas informações pedidas pelo cérebro. A compreensão não começa pelo que esta na frente dos olhos, mas pelo que esta atrás deles. A palavra “nós”, por exemplo, poderá ser entendida como plural de “nó” ou como pronome pessoal, dependendo do que o cérebro mandou o olho buscar, baseado naturalmente no contexto em que se encontra a palavra.
A compreensão não é um produto final, acabado, mas um processo que se desenvolve no momento em que a leitura é realizada. A ênfase não está na dimensão espacial e permanente do texto mas no aspecto temporal e mutável do ato da leitura. O interesse do pesquisador ou do professor não está no produto final da leitura, na compreensão extraída do texto, mas principalmente em como se dá essa compreensão, que estratégias, que recursos, que voltas o leitor dá para atribuir um significado ao texto.
A leitura é um processo descendente; desce do leitor ao texto. A compreensão começa com o estabelecimento do tópico, sugerido no primeiro contato com o texto, ainda em termos gerais. Usando os traços mais salientes da pagina a ser lida – título, gráficos, ilustrações, nome do autor, etc. – o leitor levanta uma série de hipóteses e começa a testá-las, desde o nível do discurso até o nível grafofonêmico, passando pelos níveis sintático e lexicais.
A acepção da leitura como um ato de atribuição de significado também tem seus problemas. Teoricamente, parece haver um paradoxo quanto à quantidade de informação fornecida pelo texto, que pode ser a mais ou menos, mas dificilmente na quantidade certa.
Há informação a mais quando o texto parece oferecer mais do que o leitor precisa. Diz-se que o texto é redundante. Ler com eficiência neste caso é saber explorar a redundância do texto, processando apenas a informação necessária para confirmar ou rejeitar as hipóteses inicialmente levantadas.
Há informação a menos quando o texto é visto como uma seqüência de lacunas. Existe muito conhecimento comum entre o escritor e o leitor, e o escritor capitaliza em cima desse conhecimento no momento em que produz o texto, deixando muita coisa para ser preenchida pelo leitor. Ler é neste caso preencher essas lacunas deixadas pelo escritor.
Dentro dessa mesma concepção de leitura com atribuição de significado há portanto duas concepções antagônicas de texto. Há os que vêem o texto como uma fonte de redundâncias e os que o percebem cheio de lacunas. A cada uma dessas visões corresponde também uma visão diferente de leitura: um processo altamente seletivo quando a informação é redundante e extremamente construtivo quando a informação é truncada. Em ambos os casos o papel do leitor no entanto é mais ou menos o mesmo. Quer ele use apenas parte da informação fornecida pelo texto, quer ele preencha as lacunas deixadas pelo mesmo, a obtenção do significado se dá sempre por força de sua contribuição. Num caso o leitor contribui com aquilo que o texto não tem; no outro com aquilo que o texto já tem, preferindo no entanto usar sua contribuição pessoal em vez da informação redundante do texto.
O pressuposto de que o mesmo texto pode proporcionar uma leitura diferente em cada leitor e até de que o mesmo leitor não fará leituras idênticas de um mesmo texto, tem também levantado alguns problemas. Ainda que toda experiência com o texto que remete o leitor de algum modo a um determinado seguimento da realidade seja em principio limitar as possíveis interpretações de um determinado texto. Se alguém interpreta um poema satírico ao pé da letra, não deixa essencialmente de realizar um ato de leitura, de atribuir um significado ao texto, mas deixou de perceber que o que estava sendo refletido pelo texto não era a realidade, mas um reflexo do reflexo da realidade.
A ênfase na construção de sentido a partir do leitor pode exigir portanto que se defina o perfil desse leitor, em termos mais ou menos ideais. Nesse caso, pode executar o ato da leitura, o leitor precisa conhecer o jogo de espelhos que se interpõe entre ele e a realidade. Podemos dizer que o leitor precisa possuir, além da competência sintática, semântica e textual, uma competência específica da realidade histórico-social refletida pelo texto.
ü Uma visão conciliatória
Ao definirmos a leitura quer como um processo de extração de significado (ênfase no texto) quer como um processo de atribuição de significado (ênfase no leitor) encontramos, em ambos os casos, uma série de problemas mais ou menos intransponíveis. A complexidade do processo da leitura não permite que se fixe em apenas um de seus pólos, com exclusão do outro. Na verdade, não basta nem mesmo somar as contribuições do leitor e do texto. É preciso considerar também um terceiro elemento: o que acontece quando leitor e texto se encontram. Para compreender o ato da leitura temos que considerar então (a) o papel do leitor, (b) o papel do texto e (c) o processo de interação entre o leitor e o texto.
Para melhor explicar esse processo de interação entre leitor e texto, vamos fazer uma analogia entre o processo da leitura e uma reação química. Na leitura, como na química, para termos uma reação é necessário levar em conta não só os elementos envolvidos, mas também as condições necessárias para que a reação ocorra. O simples confronto do leitor com o texto não garante a eclosão de todos os acontecimentos que caracterizam o ato da leitura. A produção de uma nova substancia – no caso a compreensão – só ocorre se houver afinidade entre os elementos leitor e texto e se determinadas condições estiverem presentes.
O leitor precisa possuir, além das competências fundamentais para o ato da leitura, a intenção de ler. Essa intenção pode ser caracterizada como uma necessidade que precisa ser satisfeita, a busca de um equilíbrio interno ou a tentativa de colimação de um determinado objetivo em relação a um determinado texto.
Essa intencionalidade é característica exclusiva do ser humano. Uma maquina pode ser programada para resumir ou parafrasear um texto, detectar anomalias semânticas e até responder perguntas implícitas; seria difícil, no entanto, imaginar uma maquina que, espontaneamente, ficasse horas entretida com a leitura de um grande romance. A máquina não teria a intenção do lazer, como não teria intenção de obter informações da bolsa de valores ou de fazer uma leitura critica de um poema de Mallarmé.
Satisfeita essa condição básica de intencionalidade, inicia-se o processo complexo de interação entre o leito e o texto. A leitura é um processo feito de muitos processos, que ocorrem tanto simultânea como seqüencialmente; esses processos incluem desde habilidades de baixo nível, executadas de modo automático na leitura proficiente, até estratégias de alto nível, executadas de modo consciente.
O processo da leitura fluente pode ser representado por uma pirâmide, em cuja base estão as habilidades elementares, envolvendo subprocessos que ocorrem em grandes feixes, de modo rápido, simultâneo e abaixo do nível da consciência. Como esse processo ocorrem em feixes, fala-se, nesse nível de leitura, de um processamento em paralelo.
A leitura, mecanicamente, dá-se por fixações dos olhos em determinados segmentos do texto, que podem ser uma palavra ou um pequeno grupo de palavras. Ao que parece o leitor não processa a letra que compõem um determinado segmento de modo linear, da esquerda para a direita, mas de modo simultâneo. Também parece que as letras não são processadas integralmente, em todos os detalhes, mas apenas nos traços distintivos. O leito não tem na memória um molde para cada letra do alfabeto. Uma leitura feita pelo cotejo de cada letra com esse molde fixo seria extremamente complicada e ante econômica, já que seria necessário não um molde para cada letra do alfabeto, mas para cada tipo possível de letra (maiúscula, minúscula, negrito, itálico, todos os diferentes tipo usados em diferentes maquinas tipográficas e de escrever, sem falar nas diferentes caligrafias de cada pessoa).
ü O leitor-aluno
Para realizar uma leitura profunda, atribuindo o máximo de sentido possível ao texto, é necessário possua não a intenção de ler, como outras habilidades, indispensáveis ao processo de relação com o texto. Ler não é apenas decodificar, mas pressupõe uma perfeita decodificação, além de capacidade de inferência, utilizando conhecimentos de mundo e toda sorte de conhecimentos prévios, na contextualização do tema abordado.
A boa formação de um leitor implica no desenvolvimento das habilidades citadas, ligadas incondicionalmente ao hábito da leitura, não apenas como atividade em sala de aula ou em tarefas relacionadas, mas como parte integrante do dia-a-dia do leitor-aluno. Entretanto a escola tem papel preponderante nesse aspecto, devendo contribuir para que esse hábito se desenvolva.


