John Tortugo

A Escolástica

Publicado por: John em: 18 18UTC Maio 18UTC 2007

A herança mais importante da atividade intelectual, particulamente
universitária, do século XIII foi o conjunto de método e de obras que foram
classificados sob o nome de escolástica, quer dizer, produção intelectual
ligada à escola, a partir do século XII, e mais especialmente às
universidades no século XIII. A escolástica vem do desenvolvimento da
dialética, uma das disciplinas do trivium, que é “a arte de argumentar por
perguntas e respostas numa situação de diálogo”. O pai da escolástica é
Anselmo de Cantuária (cerca de 1033-1109), para quem a dialética é o método
base da reflexão. A meta da dialética é a inteligência da fé, cuja fórmula
ficou célebre durante a Idade Média, fides quaerens intellectum. Esse
procedimento implica no recurso à razão, e Anselmo completou sua doutrina
pela idéia da compatibilidade entre o livre-arbítrio e a graça. A
escolástica pode ser considerada como o estabelecimento e uma justificação
de uma concórdia entre Deus e o homem. Anselmo também forneceu à escolástica
um fundamento, as provas da existência de Deus segundo um procedimento
racional. A experimentação, no século XII, de um novo método de reflexão e
de ensino foi o prólogo do método propriamente escolástico das
universidades. Tratava-se primeiro de construir um problema, de apresentar
uma quaestio, e essa quaestio era discutida (é a disputatio) entre os
mestres e os alunos. Enfim, o mestre dá a solução para o problema após esta
discussão, é a determinatio. No século XII, no programa das universidades
apareceram, duas vezes no ano, dois exercícios em que se manifestava o
talento intelectual dos mestres, as questões quodlibetais, em que os
estudantes propunham ao mestre uma questão a cerca de qualquer problema, à
sua escolha. A reputação dos mestres se fazia muitas vezes em cima de sua
capacidade de responder a estas questões.

O ensino universitário desemboca obrigatoriamente em publicações, o que
explica a importância muito grande das universidades para a difusão e a
promoção do livro(…)

No século XIII, as produções escolásticas se expremiram por duas formas. De
um lado, os comentários. Com a disputatio, o comentário foi o aguilhão
essencial do desenvolvimento do saber no século XIII. Graças ao comentário
pôde ser elaborado um saber original produzido pelos mestres em função das
preocupações contemporâneas, mas apoiando-se na tradição e fazendo-a
evoluir. A Europa dos comentários inagurava a Europa do progresso
intelectual, sem ruptura com a tradição(…)Outro produto da escolástica do
século XIII foram as sumas(…)

Recordemos alguns dos mais célebres e mais exemplares escolásticos do século
XIII. A primeira grande suma universitária foi a do franciscano inglês
Alexandre de Hales, na década de 1230. O dominicano Alberto Magno, o
primeiro alemão a obter o título de mestre em teologia da universidade de
Paris em 1248, ampliou o saber estendendo suas obras a domínios das ciências
ou das artes não ensinadas nas universidades. É grande o seu recurso aos
filósofos árabes, Al Farabi, Avicena e Averróis. Ao lado de seu aspecto
enciclopédico, a obra de Alberto Magno é também um dos mais profundos
esforços para pensar o equilíbrio entre filosofia e teologia(…)

Tomás de Aquino foi o escolástico que deixou a maior influência no
pensamento europeu até hoje. Italiano, de pequena nobreza, que morou muitas
vezes em Paris como estudante e depois como professor, também em Orvieto, em
Roma e em Nápoles, foi um professor que atraía e entusiasmava os estudantes,
e um pensador audacioso que provocou a hostilidade de numerosos colegas e de
certos prelados influentes. É o típico intelectual europeu, sedutor e
contestado, que iluminava e perturbava ao mesmo tempo os meios intelectuais
e religiosos(…) Ao mesmo tempo em que afirmava a superioridade da
teologia, Tomás, segundo expressão de Etienne Gilson, manifestou uma
espantosa “confiança no poder da razão”(…).

Segundo Tomás, o homem é um homem total. Não somente uma criatura de Deus,
que é um animal racional, mas é tambéu um “animal social e político” que se
serve, para manifestar sua individualidade, de um dom essencial de Deus, a
linguagem. De uma maneira geral, os escolásticos deram uma importância muito
grande à linguagem, e têm o seu lugar na história européia da linguística.

Citarei ainda um mestre escolástico, célebre e contestado, que merece
figurar na longa cadeia dos intelectuais europeus desde a Idade Média até
nossos dias. Trata-se do franciscano inglês Roger Bacon (cerca de 1214 a
cerca de 1282), que publicou uma tríplice suma, o Opus majus, o Opus minus e
o Opius tertium, compostos a pedido de seu amigo e protetor, o Papa Clemente
V (1265-1268). Sua universidade é a de Oxford. Filósofos e teólogo,
agressivo e profético, ele tem numerosos inimigos; um destes é Alberto
Magno, a quem ele atacou violentamente. Bacon dá uma importância especial à
astronomia que, de fato, é astrologia, e imagina todas as espécies de
técnicas e de invenções proféticas que fazem dele um Leonardo da Vinci do
século XIII.

Para terminar, gostaria de sublinhar três contribuições essenciais da
escolástica como etapa da atividade intelectual européia.

Abelardo, que foi no século XIII o maior dos pré-escolásticos, destacou uma
lição fundamental de Aristóteles: “A primeira chave da sabedoria é a
investigação contínua. Aristóteles disse que não é inútil duvidar de cada
coisa. De fato, quem duvida é levado a procurar, quem procura capta a
verdade”. O mesmo Abelardo diz no seu Diálogo entre um filósofo, um judeu e
um cristão: “Seja qual for o objeto da discussão, a demonstração racional
tem mais peso que a ostentação de autoridades”(…)

A segunda observação acentua que Alain de Libera pôde dizer, com razão, que
a escolástica trouxe uma grande “libertação intelectual”; e ela instalou na
tradição intelectual européia a idéia do saber com libertação.

Enfim, por seu desejo de pôr ordem nas idéias e de expor o saber e a
reflesão com a maior clareza, a escolástica medieval, se não criou, pelo
menos reforçou o gosto de ordem e de clareza que se atribui habitualmente a
Descartes, que muitas vezes foi apresentado como o ator de uma revolução
moderna do pensamento europeu. Descartes teve predecessores, os mestres
escolásticos, e ele mesmo é um brilhante filho da escolástica medieval.

Jacques Le Goff, “As raízes medievais da Europa”.

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